Quando eu era puto e tinha muito tempo livre, adorava ler. Lia tudo o que me despertava a curiosidade, mesmo que em teoria não fosse adequado à minha idade. Lembro-me de ter uns onze ou doze anos e ter andado a ler partes do “Meu Filho, Meu Tesouro” (do Benjamin Spock), o livro que todas as mães do tempo da minha tinham.
Numa dessas partes li que havia o perigo de rapazes na casa dos dois anos terem um pequeno trauma se vissem uma rapariga de idade semelhante ou inferior a trocar a fralda. Tal devia-se ao facto de observarem que elas não “tinham lá nada” e eles tinham “algo a mais”. Aconselhava-se a mãe a tentar explicar que isso era normal, que rapazes e raparigas tinham anatomia diferente, etc…
Fui perguntar à minha mãe se isso tinha acontecido comigo alguma vez, já que tenho uma irmã mais nova. Contou-me ela que eu reagi de forma diferente do indicado no livro… Quando vi a minha irmã nua durante uma muda, apontei para o meio das pernas dela e disse apenas “Oh… Caiu!”.
Acho que esta atitude de nunca assumir à cabeça que o problema é meu me impediu bastantes vezes de me minimizar. Deu-me força e confiança para arriscar, para me esforçar, para me destacar sempre que tal me interessava. Felizmente, ajudou-me também a resistir, durante a adolescência, a pressões de grupo para ter comportamentos desviantes. Sabia o que queria e não queria e não me importava com o que me pudessem chamar ou ostracizar por recusar aquilo que não queria. Em último caso, mudava de grupo de amigos.
Quando olho agora para o meu puto, lembro-me muitas vezes disto. Quem me dera saber se este tipo de atitude positiva e combativa pode ser ensinado ou se é apenas inato. Quem me dera conseguir ensinar o meu puto a ser forte, combativo, a ter confiança em si próprio, auto-estima e pensamento positivo.
Por mais inteligente que se seja, por mais bem preparado que se esteja (do ponto de vista académico), cada vez mais tenho a certeza que a atitude de cada pessoa perante a sociedade, especialmente na adversidade, é preponderante para se ter melhores perspectivas… E, como qualquer pai normal, o que eu acabo por desejar é que o meu puto se dê bem na vida, arranje bons empregos, bons ordenados, se mantenha com saúde e arranje uma mulher com quem tenha uma boa relação.
E que saia de casa antes dos 30.